sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Movimento dos Sem Mídia protesta em frente à Globo SP

Extraído do site Mídia Independente (wsww.midiaindepente.com.br)


Finalmente, estamos na véspera da manifestação diante da sede das Organizações Globo em São Paulo. O ato foi anunciado neste blog e em vários outros espaços na internet durante quase um mês. O Movimento dos Sem-Mídia explicou as razões que fundamentam sua existência e seus atos em dezenas e dezenas de textos. Fiz o mesmo em cerca de duas dezenas de entrevistas que concedi a veículos da imprensa "alternativa". Agora, meu amigos, é com vocês que vivem em São Paulo ou nas cercanias. O que precisamos, mais do que retórica, é de atitudes. E comparecer ao ato de protesto diante do veículo de mídia mais questionado do país, é a atitude mais firme que você já teve oportunidade de tomar. Aproveitá-la ou não depende só de você. Eu fiz minha parte.

Quem quiser transformar essa indignação que tantos vivem manifestando em e-mails, blogs e em conversas particulares em atitude real, deve comparecer amanhã (sábado, 10 de novembro) diante da sede da Globo em São Paulo PONTUALMENTE às 10 horas da manhã. O endereço é avenida Chucri Zaidan, nº 46. Essa avenida é continuação da engenheiro Luis Carlos Berrini, depois que cruza a avenida Jornalista Roberto Marinho. A estação Morumbi da CPTM é próxima dali. É perto do bairro do Brooklin, vamos dizer para quem não conhece bem.

Também quero fazer algumas recomendações.

O Movimento dos Sem-Mídia não acredita em violência e em insultos. Achamos que a forma civilizada com que nos portamos na nossa 1ª manifestação é a base da grande repercussão que têm tido nossos atos. Esse é o melhor caminho para mostrarmos à sociedade que não somos um bando de radicais descerebrados e sim cidadãos ponderados, lúcidos, que querem que concessões públicas como a da Globo, por exemplo, sejam usadas de forma democrática, contemplando os interesses de toda sociedade e não só de uma pequena parte dela, da parte que concorda com os detentores da concessão. Assim, faixas levadas à manifestação de amanhã precisarão se ater aos princípios que professamos. Também é importante o respeito absoluto ao patrimônio público, privado e ao direito de ir e vir das outras pessoas.

As autoridades já foram avisadas do ato que faremos. Em algumas horas reproduzirei aqui os documentos que um dos advogados do MSM enviou à Prefeitura, às polícias civil e militar e ao Detran.

Também quero sugerir a quem compartilha dos ideais que impulsionam o Movimento dos Sem-Mídia e, principalmente, a quem já o integra como filiado, em suma, a todos os que não poderão vir à manifestação, que "assinem" virtualmente o Manifesto que será postado aqui no blog a partir dos primeiros minutos da madrugada de amanhã, sábado.

Tenho refletido muito sobre tudo isto. Às vezes me pergunto se não é loucura achar que um grupo de homens e mulheres comuns, de classe média, pessoas que têm que lutar diariamente para conseguirem pagar suas contas no fim do mês, poderão sequer fazer cócegas num império como esse diante do qual faremos a manifestação de amanhã. Os Marinho são bilionários. Trata-se de uma das maiores fortunas do mundo. Gente para nos retaliar no lugar deles, jamais faltará. Não só por receber algum "estímulo" deles, mas até sem "estímulo" nenhum, só para bajular.

Muita gente não crê em ideais. Acha impossível que, num mundo onde todos só pensam em lucrar pessoalmente, alguém possa fazer alguma coisa pensando no benefício de todos e, mais do que nesse conceito intangível, no benefício das gerações futuras. No entanto, a história da humanidade guarda fartura de exemplos de homens e mulheres, muitas vezes de populações inteiras, que lutaram - e, algumas vezes, venceram - movidos só pelo idealismo no qual hoje tão poucos acreditam. Mas se não acreditarmos em ideais, teremos que acreditar que este mundo em que vivemos não tem salvação, pois sem ao menos uma centelha de idealismo, o que predominará será o salve-se quem puder e, aí, sobreviverão só os mais fortes. Mas a lei da selva não interessa a civilizados.

Apesar de eu agora falar em nome de uma organização da sociedade civil, tenho que falar sobre o que, como pessoa humana, fiz até aqui. É como uma prestação de contas daquele que aceitou o encargo de presidir o MSM. Até agora, fiz o que pude. Abri mão de muita coisa pelo Movimento dos Sem-Mídia. Troquei meu emprego fixo por outro como autônomo para ter como me dedicar ao MSM. Tenho usado tempo que deveria dedicar ao meu ganha-pão a fim de organizar tudo isto. Mas não estou me queixando, apenas estou dizendo que, aconteça o que acontecer amanhã, comparecendo gente para me acompanhar ou não, vindo centenas, dúzias ou só mais um, farei o ato.

Não aluguei carro de som. Vamos usar o megafone. O MSM não tem recursos. Não sei quantos efetivamente vão cumprir com a ficha de filiação que me enviaram pela internet. Não sei quantos assinarão de fato o compromisso de me acompanhar nessa luta. Só sei que fiz o que achei que deveria fazer. Eu não podia mais continuar fazendo comentários em blogs, enviando e-mails, reclamando, reclamando sem assumir a minha cota de responsabilidade como cidadão. Estou absolutamente seguro de que fiz tudo que estava ao meu alcance para mobilizar a sociedade. Não temo fracassar. Só temo não tentar. E eu tentei.

Muito obrigado a todos pelo apoio.

URL:: http://edu.guim.blog.uol.com.br/index.html

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Aumenta o número de internautas ativos no Brasil

Brasileiros continuam em primeiro lugar em tempo de uso da internet residencial, com 22 horas mensais por pessoa

01/11

O número de internautas ativos cresceu 47% em um ano no Brasil, segundo dados do IBOPE/NetRatings referentes ao mês de setembro de 2007. A quantidade de usuários que navegam mensalmente na internet residencial atingiu 20,1 milhões em setembro de 2007.

Considerando-se todos os ambientes (residências, trabalho e locais públicos gratuitos e pagos) o número total de pessoas com acesso à internet no País chega a 36,9 milhões. Em tempo de uso da internet residencial, os brasileiros continuam à frente dos americanos, com 22 horas mensais por pessoa, contra 18 horas e 54 minutos.

As crianças e os adolescentes de ambos os sexos respondem pela faixa etária que mais têm contribuído para a expansão da internet residencial, com 53%. Os homens com mais de 45 anos tiveram crescimento de 50%. Em intensidade de uso, vêm se destacando as mulheres de 18 a 24 anos, que no período de um ano aumentaram em 25% a quantidade de páginas vistas.

Entre setembro de 2006 e setembro de 2007, as três categorias de maior crescimento percentual foram "Casa e Moda", com 73% de evolução da audiência, "Viagens e Turismo", com 67%, e "Automotivo", com 57%.

Em tempo de navegação por usuário, a categoria "Buscadores, Portais e Comunidades" passou a sustentar a primeira posição. Esse movimento está relacionado ao aumento do tempo online em comunidades.

Hélio Costa garante conversor a no máximo R$ 200

Governo estuda linha de crédito para população comprar o aparelho

07/11

O Ministro das Comunicações, Hélio Costa, disse nesta quarta-feira, 7, na Comissão de Defesa do Consumidor, que o aparelho conversor para receber o sinal da TV Digital (Set-top Box) chegará ao consumidor brasileiro a um valor de R$ 150 e ou R$ 200. Costa descartou a possibilidade do aparelho chegar ao mercado por R$ 700, citando o caso de produtos como esse vendidos a US$ 70 no Japão e China. De acordo com o ministro, se o produto entrar pela Zona Franca de Manaus terá isenção de impostos e poderá chegar aos brasileiros por, no máximo, R$ 200.

Além disso, o ministro informou que o governo já disponibilizou uma linha de crédito de R$ 450 milhões para que a indústria eletrônica nacional desenvolva o aparelho, porém disse que até o momento nenhuma solicitou o recurso. Costa destacou que o desafio está lançado e que não entende porque as empresas não querem produzir o Set-top Box.

"Estamos apenas começando a implantação da Tv Digital, é possível que tenhamos esses probleminhas no começo, mas imediatamente após vamos estar solucionando essa questão, até porque tem muita gente já sintonizada com esse problema", avaliou o ministro.

O ministro informou ainda que na próxima segunda-feira, 12, o Fórum da TV Digital irá se reunir para discutir possibilidade de garantir o acesso da população de baixa renda ao sinal digital de televisão que começa a ser transmitido no dia 2 de dezembro na cidade de São Paulo. Entre as propostas está a criação de linhas de crédito nos bancos estatais para aquisição do equipamento.

Entra no ar o OGlobo.mobi

Site para acesso via celulares terá conteúdos do Globo Online e participação dos usuários

12/11

Concebido pela equipe do jornal O Globo, entra no ar nesta segunda-feira, 12, o OGlobo.mobi (globoon.mobi), site para acesso via celulares. Segundo a empresa, a opção pelo padrão "mobi" deve-se ao fato de a tecnologia resultar de uma evolução em relação à primeira geração de sites WAP. Além de oferecer os principais conteúdos do Globo Online, o endereço permite participação dos usuários. "É um site completo no celular e não apenas uma lista de notícias, como a maioria dos sites WAP", diz Daniel Stycer, gerente de planejamento do Globo Online. O executivo afirma que cerca de 40% dos aparelhos em circulação no Brasil já permitem acesso a sites desenvolvidos no padrão mobi.

A terceira idade na rede

Texto publicado pela revista IstoÉ de sete de novembro, por Luciana Sgarbi, com colaboração de de Tatiana de Mello...


Mulheres e homens com mais de 60 ANOS perdem o MEDO do computador e descobrem na INTERNET um mundo mais alegre e sem LIMITAÇÕES

Você é muito jovem, tem entre 16 e 18 anos. Dona Léa Abreu Faria tem 68, e isso os torna de gerações diferentes e distantes. Você e sua galera, no entanto, têm um ponto em comum com dona Léa e uma infinidade de pessoas da terceira idade: a paixão pela internet. Senhorinha esperta que é, a brasiliense Léa viu nessa tecnologia a chave para uma vida mais alegre e sem fronteiras. “O computador não olha idade”, diz ela. “Através dele eu passeio pelo mundo, faço amigos e não dependo mais dos almoços de domingo para falar com meus netos.” A alegria de dona Léa vem de uma semana para cá, justamente quando aprendeu a usar na internet o programa de bate-papo instantâneo. Dona Léa é, na verdade, apenas um exemplo de uma relação de mão dupla que cresce cada vez mais no País entre a tecnologia e a terceira idade – uma relação de conquistas recíprocas. Segundo o Ibope, cerca de 1,2 milhão de internautas brasileiros estão beirando os 60 anos. Os índices apontam ainda que pessoas aposentadas ficam conectadas, em média, 36 horas por mês. Mais: a terceira idade passa tempo maior no computador, se comparada aos adultos na faixa etária entre os 25 e os 34 anos. A tendência é mundial. Nos EUA, por exemplo, cerca de 90% dos idosos acessam regularmente a internet. Na Alemanha, Japão, Luxemburgo, Bélgica e Holanda mais da metade da população da terceira idade se vale do computador como meio de comunicação. A solidão e os cursos de informática, cada vez mais numerosos e mais didáticos, são responsáveis por essa nova geração da internet.

Segundo o Ibope/NetRatings, o serviço mais acessado por pessoas com mais de 60 anos é o programa de mensagens instantâneas, seguido por um software de telefonia pela rede. Outros favoritos são os sites de bancos e de notícias. “Eles chegam aqui interessados em encurtar a distância com os parentes, e o meio mais fácil são esses programas de conversa online”, diz a empresária Mônica Dytz, que há 20 anos coordena cursos na Dytz Informática, em Brasília. “A procura por esses cursos está crescendo mensalmente quase 60%.” Por que isso? A empresária Mônica responde com a sua experiência: “Tive alunas com depressão profunda que saíram daqui marcando curso de crochê. E por email. A internet devolve o vigor que os anos levaram deles.” No curso da Dytz, pagam-se R$ 200 por 20 horas de aulas. O aluno Leonardo Pereira de Valões, militar que aos 70 anos está na reserva, admite: “O que mais me assustava eram os botões e o mouse, dava a impressão de coisa complicada. Hoje já me acostumei e uso todos os dias para ler meus jornais e revistas.”

A advogada paulista Marisa Capriotti, 66 anos, começou a usar a máquina timidamente – e profissionalmente. “Só fazia minhas petições”, diz ela. Nunca fez curso, foi autodidata. “Hoje tenho até uma página na rede, no programa Orkut, porque assim meus amigos acompanham a minha vida.” O que Marisa mais faz pela internet, no entanto, é enviar flores. “É prático e muito gostoso escolhê-las, elas chegam mais bonitas. Mas quero avisar que gosto de ganhar flores também através da rede.”

Se no começo da relação com o computador até os botões podem assustar, como foi o caso do militar da reserva Leonardo, o certo é que o digita-daquidigita- de-lá vai dando desenvoltura e ao longo do tempo muitas pessoas passam a procurar até uma cara-metade pelo computador. O portal Mais de 50 (www.maisde50.com.br), que se volta quase exclusivamente à terceira idade, existe há sete anos e conta com 95 mil idosos brasileiros cadastrados. Ao navegar pelas páginas é possível encontrar a ficha técnica, com fotos e preferências de cada um, o suficiente para começar uma paquerinha. Esse é o caso de Ana Lucia Negrini, 63 anos, e Godoy Saint Mello, 64, que se casaram após trocarem algumas mensagens. “Encontrar um amor pela internet é possível, mas é preciso tomar cuidado e freqüentar sites confiáveis com tradição no mercado. O idoso já viveu quase tudo em vida e não quer perder tempo com trotes e molecagens.”

sábado, 10 de novembro de 2007

O futuro do jornalsimo

Por Ivo Lucchesi para o Observatório da Imprensa

O que se pode pensar quanto ao modelo de jornalismo no futuro? Não são poucos os que, a tal questão, destinam reflexões. Diria que o tema é tão instigante quanto a margem de risco das previsões. Por outro lado, quem olha para frente sabe que, nada vendo, pois o futuro é o ainda será construído, tem o desafio de, na paisagem ausente, inserir algo cujo tempo, depois, confirmará ou não. Pensar, portanto, sobre o futuro implica aceitar, a priori, o risco.

A melhor maneira de diminuir o insucesso do olhar prospectivo é tentar, ao máximo, ater-se ao correto reconhecimento dos sinais já inscritos na realidade presente. O primeiro deles dá conta de que, em âmbito mundial, a circulação de jornais diários decai. Para esse fato, não há muito o que especular: o surgimento de outras opções oriundas das novas tecnologias da informação, afora as anteriores (rádio e televisão), gerou expansão de concorrência.

Em tempos de "infotela"

O impacto das novas ofertas sobre a vitalidade do jornal se deve(u), acima de tudo, por certo equívoco que, há algumas décadas, o jornalismo cometeu: investir na informação, em detrimento do conteúdo. A fórmula satisfez num primeiro momento em que a concorrência era menor: ainda inexistia a informação on-line. No que esta, entretanto, se tornou presença no cotidiano de milhares de pessoas, o formato do "papel-informação" se enfraqueceu ante a "infotela", rápida, caseira e gratuita, principalmente em tempos de "banda larga". É claro que os dois modelos, por algum tempo, ainda haverão de disputar "fatias" de consumidores. Todavia, é inevitável que, para frente, gerações já educadas por estímulos audiovisuais se inclinem, naturalmente, para a procura de informações em telas e não mais em páginas.

A única solução a ser trilhada pelo jornalismo impresso será a de enveredar pelo caminho do conhecimento. Por outro lado, não é tarefa das mais fáceis preencher páginas e páginas (e mais cadernos), diariamente, com matérias propiciadoras de conhecimento. Quem sabe, então, surja a idéia de jornais, a exemplo do que já foram no passado, em lugar de diários, se tornarem semanários, ou edições em dias alternados, como três edições semanais.

Enfim, o que se pontua, no limite deste modesto exercício especulativo, é a imperiosa determinação de o jornalismo impresso passar por uma "reinvenção". O jornalista do futuro terá de se indagar quanto ao papel a ser por ele desempenhado. Em igual condição, já está a figura do professor, bem como a do médico. As tecnologias de informação, conteúdos e diagnósticos, para bem e para mal, são parte da realidade concreta atual e, a despeito das deformações geradas, elas vieram para ficar. Outras mais somar-se-ão.

A tecnologia não anda para trás. Também não dá passo recuado o tempo da história. Deste modo, é infantil qualquer tentativa de confronto. Trata-se de uma guerra que, antes de ser deflagrada, tem vencedor assegurado. A questão reside, pois, em evitar-se a perda maior. Como se sabe, a tecnologia, em si, não tem a noção de ética. A tecnologia propõe; o usuário dispõe. A tecnologia é potência; o indivíduo é ato. No reconhecimento devido quanto ao papel a ser exercido por cada agente, a decisão é a do operante humano. É ele que, por seu ato, demonstra a face radiante (ou terrível) do que é mera potência.

Emancipação do jornalismo impresso

Se alguma eficácia crítica tem o pensamento prospectivo, proposto em parágrafos anteriores, cabe definição no tocante ao futuro desempenho do jornalismo impresso. Nesse caso, o jornal terá de ser capaz de oferecer ao leitor aquilo que ele não seja capaz de encontrar em nenhuma outra "ferramenta" de uso continuado. Esta situação-limite representará uma nova etapa de emancipação do jornalismo impresso. Para tanto, haverá de se redefinirem o perfil e a formação do atual profissional de comunicação, com a devida conseqüência nas grades curriculares dos atuais cursos. A cena do futuro exigirá profissional com apuro intelectual e desenvoltura em línguas. O que for "recrutado" para operar informações em mídias eletrônicas será aquele menos sofisticado intelectualmente e mais eficiente em "tecnicalidades", obviamente, com salário menor. Em contrapartida, será contratado para jornais impressos os que demonstrarem maior suporte de conhecimento.

A rede do capital já sabe, há muito tempo, que quem se forma à base de máquinas é muito menos criativo e incômodo do que aquele que forjou seu saber em obras de densidade. Não é menos verdade também que a rede do capital precisa dos dois, seja no varejo, seja no atacado. A rede fatura com os dois. Os dois, porém, apenas poderão faturar com um. Quem apostar na duplicidade do ganho perderá em ambos. O que se desenha, aqui, é um futuro com prefigurações invertidas, ou seja, o mundo das "infotelas" será entretenimento para as massas, enquanto a realidade das "logopáginas" será destinada a segmentos seletivos.

A "(in)cultura de massas"

O fosso do futuro poderá ser o oposto do que hoje parece o contrário. Hoje, os mais instruídos e, economicamente, ativos estão na "rede", contra o expressivo contingente de excluídos. No futuro, dar-se-á o inverso, a exemplo do abismo que se verificou na Idade Média: o saber atrás das muralhas. A "alegria ingênua", fora delas. Alguém retrucará: o vigor da era renascentista pôs abaixo as muralhas. Sim, é verdade. Passado o primeiro estágio, eis que o quadro se redefiniu em outros formatos. Adiante, a sociedade de massa demonstrou que a fórmula anterior poderia ser reeditada. Foi necessário quase um século para se caracterizar a "(in)cultura de massas".

O jornalismo do futuro terá de aprender que não há absorção de conhecimento, sem a contaminação do "espanto". O problema do jornalismo atual é o fato de ele confundir "espanto" com "sensacionalismo". No futuro, o jornalismo saberá que a "sensação" é tão instantânea quanto fugaz. O "espanto" (do qual surgiu o pensamento filosófico) é impactante e transformador. O leitor do futuro não quererá o segundo, mas perseguirá o primeiro. O segundo será devorado, com avidez, pelo "vedor".

O desafio do jornalismo impresso, resguardado algum grau de equívoco, será o de apostar na análise, na interpretação, na criticidade e na contextualização. Para tanto, precisará da cumplicidade entre cérebros e temporalidade. A TV já ensinou: tudo que é diário não se sustenta pela qualidade. A diferença está no fato de que a TV põe a imagem gratuitamente em todas as casas e a qualquer hora. O jornal, não. Cada um escolhe e, por ele, paga, ainda que seja um preço barato. Esperemos, pois, o futuro.

Sobre controle

Texto escrito por Gabriel Priolli para o Observatório da imprensa que relata sobre o novo seriado da Globo - O Sistema, abordando, por meio do humor, o controle social, a manipulação e a necessidade de fugir desse "sistema".

Um cidadão comum, fonoaudiólogo, neurótico e estressado como todos os demais urbanóides que experimentam a provação de viver numa metrópole brasileira atual, é colhido num teste profissional de uma operadora de telemarketing. Ela quer deixar de ser "passiva", atendendo apenas a pedidos, reclamações e insultos, para tornar-se "ativa", vendedora de serviços e benesses a clientes que, em geral, não precisam deles nem os querem. E liga aleatoriamente para o telefone dele, para demonstrar à chefe que merece a promoção.

Por circunstâncias típicas desse tipo de contato social, há um desentendimento entre os dois e a moça é reprovada no teste, já que não apenas não vende nada como ainda irrita o cliente. Em vingança, ela decide apagar os registros do fonoaudiólogo em todos os cadastros a que tem acesso (e são muitos): bancários, previdenciários, de empresas telefônicas, etc. Com a maior facilidade, simplesmente "apaga" a existência civil do indivíduo, cuja identidade não é mais reconhecida por computador algum, de qualquer serviço público ou privado a que recorra.

Desesperado, o fonoaudiólogo luta para provar que não evaporou do mundo dos vivos e descobre que existe um movimento de resistência, um grupo de guerrilha, que combate arbitrariedades eletrônicas e informáticas de todo tipo. Isso inclui as cada vez mais onipresentes câmeras de vigilância, às quais desabridas guerrilheiras não perdem oportunidade de exibir os seios, num ato de repúdio e transgressão. Unida a esse grupo, a nossa vítima, antes apalermada, agora está próxima de se tornar herói numa insólita luta de libertação, bem sugestiva do espírito dos tempos que correm.

Experimento ousado

Em linhas gerais – ou melhor, em poucos bits – esse é o argumento central da nova série O Sistema, que a TV Globo estreou na semana passada. Concebida pelo trio José Lavigne, Alexandre Machado e Fernanda Young, a série é um experimento ousado de linguagem, que não paga qualquer tributo à teledramaturgia rastaqüera das novelas nem às minisséries, só um pouco mais ambiciosas. Bebe nas águas do cinema de vanguarda (do Matrix americano ao Cheiro do Ralo brasileirinho), dos quadrinhos autorais, da literatura contemporânea mais radical. E oferece um produto de difícil digestão para as platéias imbecilizadas pelo lixo cultural do mainstream da mídia, mas de humor refinado e prazeroso para aquela meia dúzia de telespectadores teimosos, que se obstinam em pensar em vez de entorpecer a mente, quando vêem as luzes piscando na telinha.

O que interessa no novo produto global, entretanto, é menos ele do que o debate conceitual que propõe. Sua contribuição está em recolocar a idéia de um "sistema" como ente abstrato e absoluto, mecanismo de controle social onipotente e inescapável, ao qual todos os indivíduos estão inapelavelmente submetidos, e que só pode ser combatido – quando alguém se dá o trabalho – pela violência revolucionária, posto que não há nada a fazer pelos caminhos institucionais.

É uma idéia cara à ficção, não apenas a nacional nem a contemporânea, talvez porque permita aos criadores um certo grau de análise política e de contundência crítica, sem ultrapassar os limites de suscetibilidade da indústria da cultura e do entretenimento, que lhes paga as contas. Se o sistema não tem rosto nem nome, pode-se bater nele à vontade e ainda ganhar dinheiro, nos meios de comunicação que justamente informam, conformam e sustentam a lógica perversa desse mesmo sistema.

Superação das metáforas do totalitarismo

O sistema como construção sobre-humana, monstro desgarrado do controle dos cidadãos comuns e preso a uma lógica interna, realimentada automática e autonomamente, já foi traçado com maestria pela alta literatura, de O Processo de Franz Kafka ao 1984 de George Orwell. Mas funcionava como metáfora do totalitarismo, flagelo político real da época em que as duas obras foram escritas.

Com a superação histórica desse perigo e o concomitante desenvolvimento dos meios de difusão cultural, a noção de sistema foi ganhando contornos mais difusos, menos ideológicos, sobretudo depois que o termo passou a ser um dos pilares da "novilíngua" da informática. Daí a sua ampla disseminação nos produtos culturais mais variados, muitos dos quais avessos a qualquer preocupação política efetiva.

Estamos fartos de ver bravos policiais norte-americanos tentando enfrentar os piores criminosos, com a oposição permanente do "sistema". Nos filmes de Hollywood, sempre há alguma maquinação superior, tramada em esferas inatingíveis, para proteger os mandantes e financiadores do crime, e seus aliados na justiça, na política e na própria segurança pública. O Bruce Willis de Duro de Matar, por exemplo, não teria se criado, não fosse o "sistema" a desafiá-lo em sua incorrigível rebeldia. Tiros e pancadas sobram para todo lado, algumas cabeças rolam, mas a máquina monstruosa jamais é desmontada de fato.

Transportando o tema para o Brasil, temos neste momento o sucesso retumbante de Tropa de Elite, no qual o protagonista capitão Nascimento agonia-se com a falta de saídas do jogo kakfiano em que foi aprisionado, culpando exatamente quem? O "sistema". Desfilam no filme todos os responsáveis pela tragédia social brasileira, mas no julgamento do próprio capitão – para não falar de incontáveis observadores externos – mesmo eles são, de alguma forma, vítimas da situação. Culpado mesmo é o "sistema". Sempre aquele ente abstrato, avassalador, super-poderoso, que nem vale a pena combater porque jamais será desmontado.

Graça no sistema indefinível

No seriado global, o humor está em pintar o absurdo desse "sistema" e a tentativa anárquica, alucinada, de denunciá-lo e combatê-lo. É nisso que reside a graça dos personagens e de suas ações. Mas não parece provável que, nos próximos capítulos, os elementos constitutivos do sistema opressor sobre o cidadão brasileiro – a ganância empresarial, o desprezo aos direitos sociais e individuais, a incompetência do Estado, a irresponsabilidade dos gestores públicos, a mediocridade e a manipulação da mídia etc – serão esmiuçados criticamente, para revelar ao espectador onde, afinal, ele se apóia. Até para a funcionalidade da narrativa humorística, convém que o "sistema" siga abstrato e indefinível, porque assim incomoda menos e pode até ser engraçado.

A situação vivida pelo fonoaudiólogo de O Sistema só é possível num Brasil em que as empresas têm mais direitos que os cidadãos, em que a pessoa humana só tem status se pode consumir, em que o Estado não regula a vida social e sim atende aos interesses da "elite" dominante. Num Brasil que tem leis que "pegam" ou "não pegam", que são respeitadas apenas por quem não pode pagar pela inobservância delas, que faz da luta por direitos mínimos uma tarefa de Brancaleones estóicos. Seria fácil identificar os grandes responsáveis por esse estado de coisas, e as formas de mudá-las. Mas não vale muito a pena, sobretudo se o que estamos fazendo é apenas... televisão.

"Antigamente, a gente lutava para derrubar o sistema. Agora, ele cai uns minutinhos e a gente fica desesperado." A piada corrente expressa mais do que a mudança de perspectivas, do mundo em revolução nos anos 1960 para a globalização conservadora da atualidade. Expressa resignação e cansaço, por um estado de coisas paradoxal, que a cada dia nos oprime mais, enquanto nos seduz e anestesia. Se é tão difícil mudá-lo, que ao menos seja possível rir dele.